O jornalismo e a história política brasileira perderam um de seus personagens marcantes. Morreu no último sábado (18), em São Paulo, o jornalista e ex-militante da luta armada Celso Lungaretti, aos 75 anos. Ele estava internado há três semanas no HCor após sofrer uma fratura no fêmur em um acidente doméstico e acabou não resistindo a complicações pós-operatórias.
Trajetória de resistência e o “Náufrago da Utopia”
Nascido na capital paulista em 1950, Lungaretti entrou cedo para a resistência estudantil e para a luta armada contra a ditadura militar. Preso e torturado em 1970, carregou as marcas daquele período por toda a vida.
Mais tarde, formou-se na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), unindo o jornalismo ao ativismo pelos direitos humanos. Toda a sua vivência na guerrilha aos 18 anos foi retratada em seu célebre livro autobiográfico Náufrago da Utopia (2005), título que também batizou o blog de análises políticas que ele manteve ativo por quase duas décadas.
A batalha histórica contra uma injustiça
Por décadas, Lungaretti carregou o peso de uma acusação histórica: a de ter delatado aos militares a localização do acampamento de treinamento da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) no Vale do Ribeira, liderado por Carlos Lamarca.
Ele sempre negou veementemente a versão oficial de antigos militantes, sustentando que os torturadores só conseguiram extrair dele a localização de uma base antiga, já desativada. A redenção histórica veio em 2004, quando o renomado historiador Jacob Gorender confirmou publicamente que as informações dadas por Lungaretti eram de uma área abandonada e que ele não sabia do novo paradeiro de Lamarca. Para o jornalista, a retratação corrigiu a maior injustiça de sua vida pública.
Últimos anos e legado

Recentemente, Lungaretti havia concluído a produção de Náufrago da Utopia 2, que estava em fase de edição. Entre suas últimas reflexões publicadas em seu blog em junho, ele deixou uma mensagem marcante sobre como gostaria de ser lembrado:
“Como quem ousou lutar batalhas dificílimas e geralmente vencê-las, provando que nós, revolucionários, não podemos nos conformar jamais com as injustiças.”
Celso Lungaretti deixa a esposa Nadja e as filhas Luana e Laura. O velório será realizado nesta terça-feira (21), no Cemitério São Pedro, na Zona Leste de São Paulo.
